Miguel Zvonimir Krouman imigrou da Iugoslávia (atual região da Croácia) para o Brasil, ainda criança, com a mãe, Liza Dubanic, porque ela temia a invasão russa na Iugoslávia. Não conheceu o pai. A mãe casou-se novamente, no Brasil, com um imigrante alemão. Casou-se, em 1950, com Catharina. Trabalhou como ferramenteiro, inclusive na Wolf Metal, companhia alemã, fazendo gravações em aço inox. Vivenciou a 2ª Guerra Mundial, o nazismo e a ida da fábrica da Volkswagen para São Bernardo do Campo. Tem lembranças das greves em São Bernardo do Campo. |
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Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS)
Núcleo de Pesquisas Memórias do ABC e Laboratório Hipermídias
Depoimento de Miguel Zvonimir Krouman, 83 anos
São Caetano do Sul, 27 de novembro de 2007
Pesquisadoras: Raquel Nantes Tavares e Priscila Perazzo
Equipe técnica: Ricardo Gonçalves de Melo Souza
Transcritores: Paulo Nunes e Izomar Lemos
Pergunta:
Senhor Miguel, vou pedir para o senhor começar falando o lugar que o senhor nasceu e a data de nascimento.
Resposta:
Eu nasci numa cidade chamada Brot, B-R-O-T, chamava Slavonski Brot, na beira do rio Sava, que é o afluente do Danúbio.
Pergunta:
No país? Naquela época?
Resposta:
Iugoslávia, naquela época. Hoje é Croácia.
Pergunta:
E qual foi a data de nascimento?
Resposta:
17 de setembro de 1924.
Pergunta:
E como era a sua família, seu Miguel? Conta para nós, pai, mãe, irmãos, se o senhor tinha ou não.
Resposta:
Eu não tinha irmãos. Eu não lembro muito bem. Eu me lembro muito do frio, frio eu não esqueci. Porque eu vivia sempre perto do fogão a lenha, a gente tinha fogão a lenha dentro da casa e eu ficava sempre perto do fogão, porque era muito frio mesmo. E lembro que eu tinha, como hoje os meninos têm carrinho de rolimã, eu tinha um pequeno trenó, eu descia os morros, eu me lembro que levei um tombo uma vez que eu bati de um jeito, até hoje não esqueci. Me lembro quando o rio Sava, o rio Sava era um rio muito importante, tinha um lago, mais largo do que o Tietê, e ele congelava e a gente brincava em cima do gelo. Passava uma ferrovia, perto da cidade que eu nasci, que vinha de Belgrado para o leste, e a gente brincava sobre os trilhos, então dava um trabalho para os guardas lá, enxotar a gente do gelo e dos trilhos. A família, eu me lembro que, a gente vivia bem no caminho, nada de errado, vivia no aconchego.
Pergunta:
E o senhor não tinha irmãos?
Resposta:
Não.
Pergunta:
E nessa época o seu pai estava com você?
Resposta:
Não. Não mais.
Pergunta:
O senhor chegou a conhecer o seu pai?
Resposta:
Não.
Pergunta:
Então sempre morou o senhor e a sua mãe? Não tinha avós?
Resposta:
Eu minha mãe, com as outras da família, eu acho que eram da família, era da família da minha mãe mesmo. E meu pai não conheci..
Pergunta:
E até quantos anos o senhor viveu nessa cidade?
Resposta:
Seis. Cinco anos, quase seis anos. Cinco anos e dez meses. E aí nós embarcamos para o Brasil.
Pergunta:
E o senhor chegou a ir à escola nessa cidade?
Resposta:
Não, não, não. Em casa eu falava em croato, somente o que aprendi em casa mesmo, no dia-a-dia. Mas alemão eu não falava. E minha mãe, ela foi embora, acredito eu, pelo seguinte, porque em 1917 surgiu o comunismo na Europa e ela era tão católica, coitadinha, era muito católica e aí os padres falavam do comunismo como se fosse um dragão que ia comer as pessoas, né? Não era tão querido, os fiéis ficavam com medo, ficaram com medo do comunismo, minha mãe então, ela sempre dizia, ela sempre dizia, quando nós estávamos no Brasil, que Deus mandou ela para o Brasil. Por quê? Porque eu tinha uma tia nos Estados Unidos, uma irmã da minha mãe, que já estava há algum tempo nos Estados Unidos, já tinha propriedades e mandou documentação para nós, garantindo a nossa ida para os Estados Unidos. Minha mãe não quis ir para os Estados Unidos, veio para o Brasil. Ela falou que Deus mandou ela para o Brasil, o país que tem formato de uma cruz. Aí eu fiquei analisado, acho que ela foi bem. Porque se eu fico na Iugoslávia, com a ida dos alemães para atacar a Rússia, passaram pela Iugoslávia, fizeram estripulias. Perderam e voltaram correndo, o russo atrás, aí o russo chutou todos nós, todos os alemães, chutou todos os alemães, porque naquela época eu já não estava mais lá, e fez estripulias também, né? Então, acho que minha mãe fez bem nesse ponto. Quanto aos Estados Unidos ela fez bem também, por quê? O meu primo, ele foi o primeiro a viajar para a guerra, ele foi fuzileiro naval, lutou contra o Japão no Pacífico. Ele teve sorte, ele morreu de velho. Sei lá se eu teria tanta sorte. Então no Brasil eu fiquei a salvo. Minha mãe, ela quis salvar o filho dela e conseguiu.
Pergunta:
A sua mãe tinha algum trabalho lá na Iugoslávia? Ela trabalhava ou não?
Resposta:
Ah, eu acho que ela, lá na Iugoslávia eles eram agricultores, plantavam, serviço de casa, né? Aqui no Brasil, ela falava alemão. Aqui no Brasil, quando ela veio nunca faltava emprego para ela, porque, ela falando o alemão, ela tinha emprego em todas as famílias ricas de São Paulo, alemãs. E com os judeus também, judeu também fala alemão, né? Então ela emprego direto, ela perdeu emprego só com, ela me levava junto, então eu brigava com o filho do patrão, aí ela perdeu o emprego.
Pergunta:
E ainda mais um pouquinho lá na Iugoslávia. A cidade era tipo a cidade pequenininha, que vocês tinham uma plantação? Ou eram trabalhos industriais? Como era essa cidade?
Resposta:
Não era, não tinha indústria. Eu não lembro muito bem da cidade, eu não lembro. Eu sei que ela existe no mapa e ela é meio famosa, porque ela fica naquela ferrovia que vem de Belgrado para Fies (?). Fica junto a estrada de ferro e não lembro assim da cidade, quantos habitantes assim, eu não sei.
Pergunta:
Não, mas o senhor lembra assim, das outras pessoas da sua família com o que eles trabalhavam?
Resposta:
Não lembro, não lembro.
Pergunta:
Bom e aí a sua mãe resolveu vir para o Brasil mais ou menos em 1930?
Resposta:
Em agosto de 1930.
Pergunta:
E como é que vocês vieram? Quais foram as condições?
Resposta:
Nós viemos, eu acho que nós viemos por conta da minha mãe. Porque eu lembro de uma história que aconteceu, que roubaram ela no navio. Quando ela viu, nós estávamos aqui já, não sei que jeito que ela deu, mas roubaram ela no navio. O navio seguia para a Argentina, nós descemos em Santos, mas ela não foi para a fazenda. A maioria dos imigrantes que vieram foram designados para as fazendas, né? A minha mãe não veio para a fazenda.
Pergunta:
Mas nesse navio tinham outras levas de imigrantes ou vocês estavam num navio diferente?
Resposta:
Acho que tinha outras levas de imigrantes que iam para a Argentina. Era um navio meio cargueiro, meio passageiro, né? Do navio, que eu lembro bem mesmo é que eu fiz amizade com um padeiro, da padaria e eu sempre ganhava pão doce da padaria. O cara fazia na padaria e eu ganhava pão doce. Isso eu lembro. O pessoal gostava de mim porque eu era bonzinho, quietinho, não era mal criado.
Pergunta:
Seu Miguel, assim, na Iugoslávia, qual era a alimentação que vocês tinham? O que era comum comer lá? Era a mesma comida que a brasileira, que nós comemos aqui?
Resposta:
Não lembro muito bem, que a gente comia. De manhã a gente comia polenta com leite, lá. Polenta com leite. E depois tinha galinhas, tinha porcos, tudo era base do trabalho imenso que eles tinham. Criavam tudo e plantavam, então a gente tinha uma certa fartura a custa de muito trabalho. E de lá não me lembro muito mais, assim.
Pergunta:
E a religião do país? É a religião católica ou alguma outra?
Resposta:
É a religião católica, por isso que a Iugoslávia, mais para o norte, ela é mais católica do que para o sul, no sul já existe mulçumanos, né? Então existe a Eslavônia que foi a primeira que se separou. Depois da guerra, sabe o que fizeram com a Iugoslávia? Fizeram um monte de São Caetano, retalharam tudo. Aí apareceu a Eslavônia, depois a Croácia, Bósnia, aí foi todo mundo ficando independente, né? E mais pro sul já tinha a influência turca, já era outra religião, mas minha mãe era muito católica, muito católica. E você sabe, ela morreu cedo, não sei se foi bom ou não, mas ela era tão católica e não conseguiu (?), por exemplo, com a família, né?
Pergunta:
E o senhor lembra de alguma comemoração lá da Iugoslávia, alguma festa?
Resposta:
Não lembro. Só lembro do meu trenó pequeno que eu usava no gelo, do rio, que era afluente do Danúbio e lembro da ferrovia que passava lá, era uma ferrovia muito importante, atravessava a Iugoslávia toda. Tanto é que, quando nós viemos para o Brasil, nós pegamos a ferrovia na nossa cidade e fomos até (?), embarcamos em (?) e descemos o mar Adriático, passamos pelo sul da Itália, pegamos o Mediterrâneo, passamos por Gibraltar e caímos no Atlântico.
Pergunta:
Pararam, teve alguma parada na costa da África, alguma coisa assim?
Resposta:
Não lembro. Eu só lembro de uma parada que teve no Rio de Janeiro, antes de chegar no Rio de Janeiro, houve um temporal muito grande então puseram salva-vidas em todo mundo, embarcaram em barquinhos para sair do navio, sei lá. Eu me lembro que me puseram um salva-vidas e no entanto eu não sabia nadar.
Pergunta:
Sendo um país católica, a sua mãe tão católica, o senhor não lembra das comemorações do Natal?
Resposta:
Não lembro, não lembro. Eu lembro outra coisa também, que eu vivia sempre perto do fogão e uma vez caiu uma caçarola grande, uma panela grande de água fervendo em cima de mim e até hoje eu tenho marcas.
Pergunta:
Como foi que a sua mãe curou a ferida? Machucou bastante, né?
Resposta:
Machucou bastante, ficou uma marca muito grande aqui. Também não sei como ela curou. Por meios caseiros, porque não ainda existia essa facilidade que tem hoje, né? Se usava muito meios caseiros.
Eu lembro que quando nós chegamos em Triest (?), eu lembro de uma coisa interessante, porque talvez por causa do rio. O navio estava ancorado no porto do Triest e minha mãe estava bem na beirada do navio, se despedindo, dando tchau e eu fiquei com medo de me largar, porque eu fiquei sentado no meio.
Pergunta:
E a sua mãe se despedia de quem? Quem acompanhou?
Resposta:
De algum parente, uns parentes acompanhou. E ela veio para o Brasil sozinha, com a cara e coragem, e com Deus, ela falou.
Pergunta:
Não tinha ninguém para receber vocês aqui no Brasil?
Resposta:
Não.
Pergunta:
Quem pagou a vinda de vocês?
Resposta:
Ela pagou, ela pagou. Depois ela tinha dinheiro, mas roubaram ela no navio, ela foi ver já estava aqui, ladrões já existiam naquela época.
Pergunta:
Seu Miguel, apesar dela dizer que uma orientação de Deus, o senhor sabe por que ela escolheu o Brasil? Tinha propaganda do Brasil na Iugoslávia naquela época? Onde ela achou no mapa o Brasil?
Resposta:
Também não posso te dizer, porque, talvez porque em 1924 vieram muitos iugoslavos para o Brasil, né? Esse pessoal do Teuto veio em 24 e talvez ela já tinha conhecimento da imigração de iugoslavos para o Brasil. Não posso garantir nada.
Pergunta:
E você chegaram no porto de Santos?
Resposta:
No porto de Santos.
Pergunta:
E como foi a chegada?
Resposta:
Chegamos à noite, aí pegamos o trem para ir para a imigração, passamos não sei quanto tempo na imigração, pelo menos na primeira noite nós dormimos lá, não sei depois se dormimos mais. Mas eu me lembro muito bem que era de noite e nós subimos a serra e eu me lembro daquelas, daquela, daquele sistema de puxar o trem para cima, aquelas roldanas grandes, cabo de aço grosso, aquilo fazia um barulho, né? Eu me lembro daquele barulho até hoje. Eu subindo a serra, olhava para todos os lados, tava escuro não via. Depois desembarcamos na imigração, que tinha uma estação própria para imigrantes, né? Outro dia eu fui lá, dar uma volta com o trenzinho, para matar a saudade. Fui eu e minha filha, nós damos uma volta no trem, fomos até a Mooca, voltamos até o Brás, depois embarcamos na estaçãozinha. Nós desembarcamos lá e fomos alojados na imigração.
Pergunta:
E dormia onde lá?
Resposta:
Tinha alojamento lá para os imigrantes.
Pergunta:
Coletivo?
Resposta:
Isso.
Pergunta:
Eles misturavam homens com mulheres ou eram separados?
Resposta:
Eu acho que, eu não me lembro, acho que não era junto. Nunca ouvi falar.
Pergunta:
Mas o senhor ficou com a sua mãe?
Resposta:
Com a minha mãe, com a minha mãe. Acho que era separado, né? O que eu lembro das fotografias era separado.
Pergunta:
E o senhor tem, assim, alguma lembrança. O senhor falou que o senhor lembrava muito do frio da Iugoslávia.
Resposta:
Do frio.
Pergunta:
Quando chegou no Brasil, em agosto, né?
Resposta:
Agosto.
Pergunta:
Deve ser mais de agosto, né? Setembro por aí?
Resposta:
Não, é agosto mesmo.
Pergunta:
O senhor lembra da temperatura, se o senhor passou frio, se o senhor passou calor? No Rio de Janeiro também.
Resposta:
Não, eu lembro de um temporal no Rio de Janeiro e lembro que quando chegamos em Santos, talvez no Rio também, não me lembro muito bem, mas eles encostavam os barcos, no navio, vendendo frutas. Primeira vez que eu vi a banana, verde, banana verde, eu olhei e falei: “nossa, que pepino torto que tem aqui no Brasil”. Quando eu era criança, que eu fiquei cismado com a banana que era verde, era torta e eu falava que era pepino. Tinha muita gente nos barcos que iam vender frutas, levava as coisas para cima e a gente jogava o dinheiro para baixo, era os caras que faziam barracas na cidade e pegavam o barco e vendiam no navio. E lembro da subida do alto da serra, da serra, com o barulho das roldanas e do cabo de aço. Isso eu lembro bem.
Pergunta:
O senhor estava acostumado com o barulho de trem, né? Pela sua cidade, né?
Resposta:
É.
Pergunta:
Esse era diferente?
Resposta:
Talvez isso me fez lembrar, esse barulho, porque lá no trem não tinha esse barulho, que era planície e aqui era serra, né? Então eu estranhei esse por causa do barulho. Depois de muitos anos que eu fui ver o sistema que puxava os cabos para cima.
Pergunta:
E, seu Miguel, como menino, saindo de um lugar para outro completamente diferente, uma viagem tão longa, o senhor sentia algum tipo de medo.
Resposta:
Não. Não, porque eu tava sempre perto da minha mãe, perto dela. Quem tá perto da mãe não tem medo.
Pergunta:
E depois da imigração, como foi? O que vocês fizeram?
Resposta:
Aí a minha mãe, ela foi morar no Alto da Mooca e arrumava emprego de faxineira, todo mundo queria ela, porque ela falava alemão. E ela me levava eu junto, então eu pousava com ela no emprego. De fim de semana ela vinha, ela vinha para o Alto da Mooca, pegava o bonde (... - ?) e vinha com o bonde até o Crespi (?) na Mooca e depois nós subíamos a pé até lá no Alto da Mooca e era só com aquele trem, nunca me perdi com ele (?). Aí, depois disso, ficamos pouco tempo assim aí depois alguém (... - ?).
Pergunta:
Quais eram os tipos de serviço que ela fazia?
Resposta:
Limpeza de casa, limpeza, faxina de casa, em geral, né?
Pergunta:
O senhor falou que ela trabalhou em casa de pessoas ricas. Ela fazia serviços de governança, ensinava alemão para as crianças? Tinha isso?
Resposta:
Aí eu já não sei, eu sei que com o alemão dela, ela conseguiu os empregos fáceis.
Pergunta:
E em indústria ela não veio a trabalhar?
Resposta:
Chegou a trabalhar um pouco na indústria do Matarazzo aqui em São Caetano. Eu lembro que eu levava almoço para ela, levava marmita para ela na hora do almoço. Nós morávamos na vila Paula e eu ia pé e levava para ela, atravessava a ferrovia não sei aonde e levava comida para ela. Mas ela não ficou muito tempo no Matarazzo, porque depois disso nós fomos para Santo André. Por quê? Porque a idéia dos antigos era, era comprar um terreninho e fazer uma casa. E aqui em São Caetano já era mais próximo de São Paulo, eu me lembro que a vila Paula, ela já estava mais assim, mais próxima do centro, era muito mais caro. Aí ela foi, fomos morar na vila Valparaíso, que era looonge da estação, na beira do Mato do Gavião, ali nós já tínhamos, ela já tinha arrumado um padrasto para mim.
Pergunta:
E o senhor não tem mais ou menos idéia de quando era isso, quantos anos o senhor tinha?
Resposta:
Ai eu tinha, acho que uns oito ou nove anos. Aí o padrasto também veio com a idéia de ir para casa, né? Então os dois trabalhavam. Minha mãe trabalhava no Photo Carlos em Santo André. Photo Carlos era um foto que existia na estação de Santo André e que ele aparece muito nas histórias antigas, né, do Ademir Médici, né? Minha mãe trabalhava na Photo Carlos e meu pai trabalhava na Fichet (?). Então conseguiram comprar um terreno e uma casa. Compraram o terreno e mandaram fazer uma casa, então fizeram dívidas, né? Dívidas de oito, nove anos, né? Duas casas hoje é muito. Então, era um terro grande, 10 por 40, 400 metros quadrados. Aí meu pai, então, tinha criação de pato, galinha, tinha plantação, horta, tinha árvores frutíferas, plantava batata. Então a gente nunca passou fome no Brasil, sempre teve fartura, sempre teve fartura, porque a gente, meu pai sempre matava porco, fazia linguiça e tal. Tinha bastante, minha mãe fazia os pratos em casa, fazia pão em casa, aqueles pão redondo grande, né? Dava para uma semana. Então era uma vida sem conforto, mas boa, confortável.
Pergunta:
Senhor Miguel, como as carnes eram conservadas, tinha geladeira?
Resposta:
As carnes, não tinha geladeira, as carnes eram “congeladas” dentro de latas de banha. Carne de porco, por exemplo. A carne de vaca não me lembro que a gente, se comprava, tinha que comprar, comer na hora, né? A gente comia muita carne porco e carne de galinha. A galinha você matava na hora e já comia, o porco a gente guardava na lata de banha, a carne ficava dentro da banha, guardada.
Pergunta:
E conservava?
Resposta:
Conservava.
Pergunta:
Por quanto tempo?
Resposta:
Aí já não posso dizer. Cozinhar, a gente cozinhava com lenha. Meu pai tinha feito. Eu falo “meu pai” porque era um bom homem, sabe? Meu padrasto era um bom homem mesmo e nós éramos muito amigos e ele era um muito bom e a gente se dava muito bem. Aí ele construiu um fogão a lenha e eu tinha que pegar lenha no mato, né? Nós morávamos na beira do Mato do Gavião, que era uma baixada que ficava na vila Valparaíso para a vila Gilda, vila Floresta. E tinha bastante lenha, depois foi a acabando a lenha, com o tempo foi acabando a lenha. Aí nós começamos a usar tocos que sobravam, aí foi duro de carregar, porque a lenha se carrega num feixe, a coisa começou a sobrar toco aí foi duro, tinha que arrancar os tocos. Aí acabou os tocos também, chegou uma hora que acabou os tocos. Aí nós íamos para o Rio dos Meninos pegar a lenha que estava enterrada dentro da água, nós ia para casa. Aquela lenha durava bastante. E até que apareceu o gás. Ah, depois disso apareceu o carvão. O carvão, a gente cozinha em latas de 20 litros, transformava em fogãozinho, cozinhava com carvão. Depois do carvão que veio o gás.
Pergunta:
Senhor Miguel, o seu pai, esse senhor, isso tinha dito para gente que ele era alemão.
Resposta:
Ele era de (?).
Pergunta:
E como foi que a sua mãe conheceu ele?
Resposta:
Deve ser porque, ela conheceu porque ela tinha uns amigos alemães em Santo André. Os alemães de Santo André era diferente dos alemães de São Caetano, porque em São Caetano era tudo pessoal dos Bálcãs. Já em Santo André tinha poucos dos Bálcãs, tinha muitos alemães da Alemanha, né? Vieram gente contratada pela Firestone, pela Pirelli, pelas tecelagens, técnicos contratados para trabalhar. Então não eram eslavos, eram gente técnica que vinha trabalhar nessas firmas. Então tinha muitos alemães. Meu pai mesmo, quando veio para o Brasil, ele veio para trabalhar em firma de alemães também.
Pergunta:
E ele veio especialmente para isso? Ou ele migrou e acabou arrumando emprego?
Resposta:
Não, ele veio especialmente para isso, porque depois da guerra de 18, também virou uma bagunça a Alemanha, porque a Alemanha, os empregos também, então ele veio para o Brasil.
Pergunta:
Ele chegou aqui no início da década de 20?
Resposta:
A data que ele chegou não posso lembrar, eu sei que ele estava muito tempo aqui.
Pergunta:
Ele chegou bem antes de vocês?
Resposta:
Bem antes. Mas ele não sabia muito bem o português, viu? Não sei por quê. Porque ele vivia no meio dos alemães e não se esforçava para aprender, né? Aí ele só sabia “um cerveja”, “um cigarro forte da ouro”(?) e alguns palavrões.
Pergunta:
E na Fichet ele fazia qual serviço?
Resposta:
Na Fichet ele era um bom profissional. Ele era ferreiro e soldador. Ele era um bom profissional
Pergunta:
Ele ficou muito tempo lá?
Resposta:
Ficou muito tempo lá. E aí ele me mandou para a escola alemã em Santo André, porque a escola alemã, eu freqüentava a escola alemã.
Pergunta:
O senhor foi mais ou menos com quantos anos para a escola alemã?
Resposta:
Fui com uns nove, dez anos.
Pergunta:
Foi a primeira vez que o senhor foi à escola?
Resposta:
É. Daí já fui fazer o grupo. Não, antes da escola alemã eu fui fazer o grupo, perto do fórum de Santo André, o grupo escolar eu fiz lá. Depois eu passei para a escola alemã. Aprender o alemão junto.
Pergunta:
O grupo escolar é aquele primeiro grupo da Senador Fláquer?
Resposta:
Acho que sim. Então depois eu passei para a escola alemã para aprender o alemão.
Pergunta:
E o que tinha na escola alemã? Quais eram as disciplinas, as matérias? Como eram os professores? O que lá tinha de diferente do grupo.
Resposta:
Além do grupo, as coisas que eram conhecidas, nós tínhamos aula de inglês, muita geografia, tradição dos povos, principalmente os da Alemanha, então a gente interessava muito, porque a professora nos trazia “National Geographic” original e a gente ficava fascinado, coisa linda, né? Então a gente ia aprendendo.
Pergunta:
A professora era alemã? Ou do Brasil?
Resposta:
Era alemã. Não era alemã, era de uma família do sul, mas é de descendência alemã.
Pergunta:
E falava o tempo todo em alemão com você?
Resposta:
Tudo em alemão, mas ela falava português também.
Pergunta:
Vocês tinham disciplinas que tinham que escrever em português, ou tudo, a história, a geografia, a matemática, era em alemão?
Resposta:
Não, tinha as duas disciplinas, tinha as duas disciplinas. E o nome dela era Charlotte Mari Elliot. Eu acho que era dessa família Elliot, de industriais do sul, que vieram já muitos anos antes para o Brasil e ela vinha dar aula de alemão. Os primeiros alemãs que chegaram ao Brasil, chegaram em São Leopoldo, no Rio Grande do Sul. E ela era do sul.
Pergunta:
E ela morava na comunidade alemã, perto de vocês? Só tinha ela na escola? Porque é ela quem assina o seu diploma? Ela era a única professora da escola, senhor Miguel?
Resposta:
Era, era a única. Fora isso nós tínhamos um padre, que vinha da Igreja São Bento, nos dar aula de religião.
Pergunta:
Católica?
Resposta:
Católica, católica. E eu me lembro do tempo que a gente cozinhava com lenha, olha que pecado. Cozinhava com lenha e eu ia no catecismo dos evangélicos e lá tinha um senhor de idade, que ele era guarda-florestal, então de domingo eu ia assistir à preleção dele, né? Falando de Deus e para eu ser bonzinho e depois ia eu roubar lenha no mato.
Pergunta:
E na escola, o senhor deve ter feito a sua escola na década de 30. Nove, dez anos, estava mais ou menos em 33, 34?
Resposta:
É, daí para frente.
Pergunta:
Aí já era, na Alemanha, já era o governo de Hitler. Tinha alguma relação, vocês que estavam na escola, chegava algum livro da Alemanha?
Resposta:
Tinha, tinha muita relação.
Pergunta:
Vocês tinham que cantar hino, comemorar o aniversário de Hitler?
Resposta:
Tinha muita relação. Porque o nazismo, ele ia utilizar o Brasil para se expandir, por quê? Porque tinha muita (?) do nazismo no Brasil, sabe? E eles realmente mandavam dinheiro para nós, mandavam cultura para nós e a gente seríamos os futuros soldados. A idéia deles, né? Então o nazismo deu muita coisa para gente.
Pergunta:
E vocês faziam alguns sinais, na escola, eram obrigados a fazer? Porque normalmente tinha essa exigência.
Resposta:
Não, na escola não. Na escola não. Mas eu freqüentei a Juventude Hitlerista, por intermédio da escola eu freqüentava.
Pergunta:
Juventude Hitlerista de Santo André ou de São Paulo?
Resposta:
De Santo André. E lá sim a gente fazia os sinais.
Pergunta:
E o que eles ensinavam para vocês lá?
Resposta:
Na Juventude Hitlerista? Vamos dizer, “guerra”.
SEGUNDA PARTE
(...) e a gente se encontrava numas matas em Mauá, fazendo guerra. A guerra era feita com, cada um tinha um fio de lã no pulso, de um cor, Santos tinha uma cor, Santo André tinha outra. Então no mato lá brigávamos, não com faca, nem com revólver, nem com nada. Era luta, né? Então quem conseguia arrancar mais daqueles fios, que ganhava a guerra.
Pergunta:
Vocês ficavam machucados?
Resposta:
Não, porque o fio de lã era fácil de arrancar.
Pergunta:
E faziam exercícios? Tinha educação física, ginástica?
Resposta:
Não, educação física. Porque nós desfilávamos em Pinheiros, antigamente Pinheiros era germano (?). E todo ano, no dia primeiro de maio, a colônia alemã de São Paulo e das redondezas se reunia lá para uma grande festa, era a festa do nazismo. Agora, meu pai era veterano da guerra de 18 e ele não se dava muito bem com o nazismo. Eles tinham rixa um com outro, sabe? Mas ele ia desfilar também, como veterano da guerra de 18. Ia desfilar. E eu ia lá fazer a olimpíada. Existia a olimpíada para os jovens, né? E eu era bom em corrida e salto em altura, achavam que eu era bom, né? Em corrida, eu acredito que eu era bom porque, depois da copa de 70, comecei correr pelo método do “cooper” e organizei um grupo na fábrica que eu trabalhava, eu trabalhava na (?), fábrica que tinha uma praça de esportes. E eu organizei um grupo, nós corríamos pelo método do “cooper”, sob supervisão médica. Mas era maravilhoso! Eu corri doze anos, 10 quilômetros por dia. Doze anos! Então era maravilhoso, o médico adorava, porque ele falava, que se toda a humanidade fizesse o que nós estávamos fazendo era um beleza. Tem gente gorda aqui que não quer nada com a vida. Aí eles mandavam gente gorda para nós, a gente fazia um teste de 2400 metros, enquanto ele fazia, a gente procurava na tabela, encaixava ele lá, mas não ajudava, sabe? Precisava muita coisa alimentar. Então nós corríamos numa espécie de um contra ao outro assim, para ver quem era o melhor.
Pergunta:
Onde o senhor trabalhou aí?
Resposta:
Eu trabalhei 20 anos na (?), uma fábrica de colheres e garfos e baixelas.
Pergunta:
Que época que era? Já anos 70?
Resposta:
É, eu entre em 61 e saí em 81. Trabalhei 20 anos lá. Então a gente corria muito lá. Por isso que os alemães lá achavam que eu corria bem. Mesmo no clube que eu fundei em Santo André, o “Sete de Setembro”, que eu ajudei fundar, não eu só, eu também tinha lugar no meu time porque eu corria, né? O pessoal me dava aquelas tarefas de correr, corria, não fazia jogada bonita, mas eu era útil, né?
Pergunta:
Mas ainda voltando um pouquinho para escola, senhor Miguel, nessa época também era muito comum se exigir que a comunidade alemã comemorasse o aniversário do Hitler, que era 20 de abril, isso não tinha?
Resposta:
Eu não lembro. Aí já tinha, por exemplo, primeiro de maio era comemorado Germânia era em geral, aí o aniversário de Hitler era comemorado nas associações.
Pergunta:
E o senhor lembra de algum, o seu pai talvez não fosse porque era anti-nazista, mas o senhor lembra se os vizinhos se reuniam em alguma dessas associações?
Resposta:
Não, não. Aqueles vizinhos que eu conhecia, ninguém se dava com o nazismo, não. Ninguém se dava com o nazismo. Eram tudo alemães, mas não se davam com o nazismo. Eu lembro, eu lembro muito bem que em festa de Natal que eu ia dos alemães, né? Aí vinha, não vinha o Papai Noel, vinha o São Nicolau, costume dos alemães era vir o São Nicolau. Então eu me lembro desse tempo que meu pai me levava nessas festas de Natal. Mas de Hitler era só, era só nas associações internas de São Paulo mesmo. São Paulo que tinha as maiores associações. Nós tínhamos somente a escola alemã de Santo André, né?
Pergunta:
Aí, quem quisesse, daqui de Santo André, ia para São Paulo?
Resposta:
Ah, não iam, não iam. (?)
Pergunta:
E jornal? Chegava jornal alemão para vocês ou jornal brasileiro mesmo? Seu pai lia o quê?
Resposta:
Jornal eu não me lembro.
Pergunta:
Rádio o senhor lembra?
Resposta:
Rádio, rádio para mim o rádio, porque, eu me lembro que a gente ia assistir, assistir não, ia ouvir jogo de futebol, naquele tempo era o mais importante paulistas e cariocas, a gente ia no vizinho escutar rádio.
Pergunta:
Seu vizinho era de alguma nacionalidade ou era brasileiro?
Resposta:
Era brasileiro.
Pergunta:
E ouvir rádio, seu pai pegar e ouvir rádio alemã, o senhor não lembra?
Resposta:
Não.
Pergunta:
Porque nessa época já pegava.
Resposta:
Não, meu pai não ouvia rádio alemã, porque no tempo da guerra os alemães que tinham mais posses, eles ouviam rádio alemã, era proibido mas eles ouviam.
Pergunta:
E falando desse tempo da guerra, quando o Brasil está em guerra contra a Alemanha, o Japão, contra todo o grupo do Eixo, como é que ficou a situação? O senhor sabe se alguém foi hostilizado, se as pessoas eram, se os brasileiros brigavam com os alemães por causa disso nas ruas. Não podia falar a língua? Como era?
Resposta:
Não. Existia, por exemplo, a fábrica que eu trabalhava em São Paulo, na Mooca, que era uma multinacional alemã.
Pergunta:
Na época da guerra o senhor já trabalhava?